Vergílio Ferreira, Seminarista

9.00 €

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Vergílio Ferreira, Seminarista

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Senhor presidente,
Senhoras e senhores acadêmicos:
Trago a esta Casa um opúsculo – sim, um livro pequeno em número de páginas, mas de grande valor investigativo -, recém-publicado na cidade do Porto, e escrito pelo sócio correspondente desta Academia Arnaldo Saraiva, tendo outro nosso sócio correspondente como objeto de estudo. Trata-se do período em que Vergílio Ferreira esteve no Seminário, dos 10 aos 16 anos, experiência que resultou em seu importante romance Manhã Submersa, publicado em 1954, e que, segundo o professor Saraiva, vem sendo privilegiado pelos leitores e pela crítica nas últimas décadas, sobretudo depois de ter sido recomendado para leitura no ensino secundário, e da sua adaptação para um filme, em 1980, no qual o próprio Vergílio participou como ator.
Professor de Português, Latim e Grego formado em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra, Vergílio Ferreira nasceu em 28 de janeiro de 1916 numa aldeia chamada Melo, pertencente ao conselho de Gouveia, na Beira Alta, e faleceu em Lisboa no dia primeiro de março de 1996, legando à literatura de língua portuguesa uma extensa obra que envolve a ficção (algo em torno de 25 volumes), um conjunto de ensaios com a sugestiva rubrica O espaço do invisível, e uma série de diários intitulada Conta Corrente.
Em Vergílio Ferreira seminarista Arnaldo Saraiva destaca a espantosa reconstituição que ele faz, em Manhã Submersa, “de um tempo e modo de uma aprendizagem cultural e existencial nada risonha e franca, antes favorável a traumas, a frustrações e a revoltas, mas afinal também favorável à consciência dramática dos limites individuais, das agruras da existência e das similitudes da vida no internato, com a vida no seio familiar, na aldeia, no país, no planeta”.
Mas, se por um lado Manhã Submersa foi recebido com aplausos por não haver caído num panfletarismo fácil, por outro seria acusado, sobretudo pelos padres, de ser uma vingança pessoal contra ex-educadores e ex-colegas, de maneira exagerada, distorcida, de um ingrato que não teria sido o escritor que foi sem ter estudado nos Seminários do Fundão e da Guarda, nos quais – disse um desses padres – começara verdadeiramente a se formar, e fora acarinhado, “como muitos”. E não falta quem pergunte: “Quem seria Vergílio Ferreira se não tivesse frequentado o Seminário?” E responda: “Talvez um pastor anônimo da Serra da Estrela. Talvez uma fulgurante inteligência perdida”. E outro: “Sem o Seminário poderia ter ficado a vida toda submersa sem conseguir alcandorar-se aos píncaros a que acedeu”.
Vergílio Ferreira pouco reagiu a isto, regista Arnaldo Saraiva, que nos oferece um raro pronunciamento dele numa entrevista sobre a querela em torno de seu romance Manhã Submersa:
Se decidi escrevê-lo, foi porque senti que o ambiente vivido naquele seminário era um símile, como que uma imagem, de todo o sistema totalitário fechado. Um sistema de direita, como era o nosso caso, com o Salazar. Mas que também poderia ser de esquerda, como o sistema estalinista. Aliás, há muitos pontos de contacto entre o que eu vivi no seminário e o que se vivia então no próprio País.
Arnaldo Saraiva conclui que a experiência de seminarista permitiu a Vergílio Ferreira “escrever um romance que prestou bons serviços à causa da educação em internatos e seminários portugueses, celebrizou o Seminário do Fundão – que por sinal fechou as suas portas em 2015, já depois de um escândalo que envolveu um seu vice-reitor – e, beneficiando sem dúvida da formação que aí recebeu, pôde produzir uma obra de inegável valor e prestígio cultural e literário”.
Eleito sócio correspondente desta Casa em 1984, na sucessão a Jacinto do Prado Coelho na cadeira hoje ocupada pelo próprio Arnaldo Saraiva, Vergílio Ferreira teve lugar aqui oito anos antes de seu ingresso na Academia de Ciências de Lisboa, acontecido em 1992, ano em que recebeu o Prêmio Camões, e isso antes de Rachel de Queiroz, Jorge Amado e José Saramago, para citar três autores, digamos, mais populares do que ele, que hoje é reverenciado como o escritor que introduziu o romance de ideias em Portugal, mas com uma densidade emocional e uma dimensão lírica que são só suas. E que desde 1997 tem seu nome condignamente homenageado numa premiação – para conjunto de obra – instituída pela Universidade de Évora, com o objetivo de contemplar anualmente propostas de candidaturas oriundas de diversas universidades, inclusive estrangeiras, nas quais se desenvolvem estudos de literatura e cultura portuguesas. De Maria Velho da Costa a Teolinda Gersão, vinte autores já foram agraciados em Portugal com o Prêmio Vergílio Ferreira, áurea que também consagra o seu nome frente às novas gerações – um grande nome ainda ser descoberto neste lado do Atlântico.

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Descrição do Produto

Autor: Arnaldo Saraiva

Capa: Ilustração de Vasco

Design: João Machado

Dimensões: 14,28 x 12,21 cm

Páginas: 51 páginas

Capa mole

ISBN: 978-989-99680-2-8

 

Informação adicional

Peso 70 kg

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